quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Artigo - Revista Exame CEO - Agosto de 2013

Comendo poeira

Era uma vez uma economia internacional pujante, em que navios singravam os mares levando mercadorias de um lado a outro do planeta e novas formas de se comunicar permitiam rápido contato com locais distantes. Essa é uma história real. Aconteceu no período que antecedeu a Primeira Guerra Mundial, quando barcos a vapor, ferrovias e telégrafos possibilitaram que o mundo alcançasse uma integração econômica até então sem igual. A globalização, no entanto, é outra história. E o Brasil parece ainda não ter percebido isso.
A diferença entre aquela época e a que vivemos hoje está na revolução tecnológica. Inovações nas comunicações e transportes permitem que as empresas fragmentem sua produção como nunca se viu, passando a comprar ou produzir seus insumos onde isto for mais eficiente, formando cadeias produtivas globais.
Para participar dessas cadeias, além de aperfeiçoar suas instituições, capital humano e infraestrutura, um país deve oferecer garantias de que empresas que optarem por alocar parte da produção em seu território serão bem tratadas e que poderão escoá-la de forma favorável. Em outras palavras, deve se sair bem em duas vertentes, a do investimento externo direto e a do comércio internacional, que foram acompanhadas de uma inédita proliferação de acordos e organizações internacionais – uma verdadeira globalização jurídica, que o Brasil vem tendo dificuldade de acompanhar.
Na vertente do comércio internacional, o Brasil tem se tornado mais protecionista no plano interno e, no plano externo, assume postura tímida na adesão a novos acordos de livre comércio.
O protecionismo se agravou mundialmente nos últimos anos, somando-se à crise para derrubar o comércio internacional. Dados recentes da Organização Mundial do Comércio (OMC) mostram que 2012 foi o segundo pior ano para esse comércio em mais de três décadas – superado, apenas, por 2009. O Brasil que, desde novembro de 2008, adotou 80 medidas de proteção – menos que outros países, e muitas delas legítimas, é preciso reconhecer – não fugiu a essa regra. Nossas importações caíram 2% em 2012. Penalizar as importações, é bom lembrar, pode causar um aumento no preço de insumos necessários à produção, o que torna a nossa economia menos competitiva também ao vender para o exterior. Isso não é nada bom para um país cujas exportações representam apenas 1,3% do total mundial e caíram 5% em 2012.
Nossa posição acanhada no comércio internacional – 22º lugar no ranking global tanto das importações quanto das exportações – se reflete, é lógico, em números igualmente inexpressivos no intercâmbio de partes e peças intermediárias, que é o que mede a participação de um país nas cadeias globais de valor.
Embora a redução nas exportações possa ser atribuída à crise na Europa e à queda nos preços das commodities, certamente o Brasil também é prejudicado pelos revezes sofridos nos dois processos de liberalização em que apostou suas fichas.
O primeiro é a Rodada Doha, que se arrasta há quase doze anos. Pode até ser que a eleição de Roberto Azevêdo para a direção da OMC dê novo fôlego a essa negociação multilateral, nosso “first best”, mas as dificuldades enfrentadas até agora recomendam que o Brasil, desta vez, pense em um plano B.
O segundo é o processo de integração regional do Mercosul. Se este foi, em seus primeiros anos, fator de inserção competitiva do Brasil na economia mundial, mesmo o intercâmbio comercial intrabloco, que chegou a representar 17% do total da região, retrocedeu para 12%. E, o que é pior, por se tratar de uma união aduaneira e exigir o consenso de seus membros para fazer concessões tarifárias, o Mercosul tem dificultado a celebração de novos acordos de livre comércio. Desde 1991 – ano de criação do bloco – foram apenas três acordos assinados, com Israel, Palestina e Egito, sendo que apenas o primeiro está em vigor.
Enquanto isso, há uma corrida mundial para a criação de novos acordos bilaterais e plurilaterais. Na última década, mais de 200 deles foram celebrados – vários por países latino-americanos, como o Chile, com 22 acordos, o Peru com 12 e a Colômbia com 11. Coincidentemente ou não, países com mais desses acordos ficaram acima da média de crescimento do comércio internacional em 2012.
Nossas empresas, é claro, tendem a perder espaço nesses mercados que estão se integrando. Se até por esse raciocínio, fundado no comércio exterior “à la século XX”, é fácil perceber como isso nos prejudica, o dano fica mais evidente quando se nota que esses novos acordos vão além da simples redução de tarifas. Eles estabelecem regras em propriedade intelectual, movimentação de capitais e outros temas, que podem vir a se tornar padrão mundial sem que o Brasil tenha participado de sua elaboração.
Esses acordos se somam à ampla rede de proteção que ampara a outra vertente associada às cadeias produtivas globais, que é a do investimento externo direto. Esta já contava com mais de 2500 tratados bilaterais de investimento (TBI). Aqui, mais uma vez, outras nações em desenvolvimento estão à frente do Brasil, caso dos demais BRICs – a China possui 90 desses acordos, a Rússia 50 e a Índia 61 – e de países do nosso continente – o Chile tem 53, o Peru 30 e o México 23, por exemplo. O Brasil, que hesita também em aderir a outros instrumentos, como aos acordos contra a bitributação, assinou apenas 15 TBI – que ajudariam a atrair investimentos para nosso território, assim como a proteger os investimentos brasileiros no exterior. E, até hoje, não ratificou nenhum deles.
Porém, seu formidável mercado interno faz que o Brasil se mantenha nos primeiros lugares do ranking de atração de investimentos estrangeiros – passou da 5ª para a 4ª posição, apesar da recém-divulgada queda de 2% desses investimentos em 2012 em relação ao ano anterior. E diversas empresas brasileiras têm procurado se internacionalizar – o estoque de investimentos brasileiros no exterior já alcança US$ 230 bilhões. Seriam esses dados ainda mais favoráveis caso o Brasil aderisse a mais acordos internacionais? É muito provável.
O fato é que poucas de nossas empresas estão integradas às cadeias globais de fornecimento. E as políticas de proteção do mercado interno e de imposição de exigências de conteúdo local que o Brasil vem adotando vão no sentido contrário ao do sistema de produção mundial fragmentado e globalizado.

É verdade que tanto a abertura comercial irrestrita quanto a movimentação de capitais desenfreada podem ter efeitos negativos, como mostrou a crise de 2008. Mas isolar-se é a pior atitude. Entender corretamente a globalização e, principalmente, a globalização jurídica é essencial para que o Brasil não fique de fora das cadeias produtivas globais, o que pode levar a perda de competitividade e diminuição do bem-estar da população. Nosso repertório de acordos internacionais é inadequado para competir na economia globalizada. Estamos correndo descalços e com uma roupa pesada em uma faixa esburacada da pista. Se não tomarmos cuidado, os demais países nos deixarão para trás, comendo poeira.

Publicado na Revista Exame CEO em Agosto de 2013, p. 110 a 113.

Artigo - Valor Econômico - 08/07/13

protecionismo em alta

Se crises econômicas costumam provocar protecionismo, grandes crises econômicas tendem a causar grande aumento no protecionismo. Desde 2008, o mundo assiste a uma escalada na adoção de medidas restritivas, que se aliam às dificuldades financeiras causadas pela crise para derrubar o comércio internacional. E, ao contrário do que se poderia imaginar, cinco anos depois, esta escalada vem se acelerando, com graves consequências tanto globais quanto para os países que seguirem este caminho.
Estudo recente da Global Trade Alert mostra que 431 novas medidas protecionistas foram implementadas de junho de 2012 até hoje. Os dois últimos trimestres superaram, com folga, o número de medidas deste tipo em qualquer trimestre anterior desde 2008 – inclusive o recordista deles até então, o primeiro de 2009, no auge da crise.
O Brasil, embora não esteja entre os piores alunos da classe, também contribuiu para esses números, com 80 medidas desde que a crise começou – só para comparar, na Argentina foram 185. Parte delas, vale ressaltar, são de defesa comercial e não são, necessariamente, protecionistas. Medidas antidumping, de salvaguarda e compensatórias, que estão amparadas pelos acordos da OMC, são ações legítimas para deter a concorrência desleal, sempre que aplicadas respeitando os requisitos estabelecidos por essas regras. O protecionismo pode ter várias caras, e a mais perigosa delas é a que não se enquadra nesse tipo de ação, ocorrendo de forma disfarçada – categoria que representa mais de 60% das políticas adotadas, segundo o mesmo estudo.
O mais importante, no entanto, é tentar entender o que justificaria o protecionismo e, mais ainda, se este compensa, pensando, sobretudo, no caso brasileiro.
O paradigma clássico para a proteção comercial, que é o da preservação das indústrias nascentes, parece não se aplicar a nossa situação, onde a necessidade de proteção tem sido vista de forma mais ampla, e em um primeiro momento, inclusive, tinha como principal justificativa a excessiva valorização do real – sem dúvida, a OMC irá precisar em algum momento tratar da questão cambial, pois ela põe em risco todos os compromissos acordados, ao tornar pouco realistas os tetos e alíquotas anteriormente negociados.
O fato é que, justificável ou não, o protecionismo tem efeitos nocivos que devem ser considerados.
No plano internacional, políticas protecionistas implementadas por um determinado país podem contribuir para uma perigosa retração do comércio, com graves perdas econômicas para todos. É o que vem acontecendo, e 2012 foi o segundo pior ano para o comércio internacional em mais de 30 anos – superado, apenas, por 2009, segundo dados recentemente divulgados pela OMC. Podem, ainda, acarretar reações específicas que prejudicariam diretamente os produtores domésticos. A adoção de uma margem de preferência para empresas nacionais nas compras governamentais, por exemplo, pode gerar retaliações de outros países que, ao aplicarem o mesmo princípio, dificultariam a participação, em seus processos de compras, das empresas daquele país que originalmente adotou a medida.
Internamente, a proteção excessiva leva a perda de competitividade e diminuição do bem-estar geral da população. O protecionismo pode estar atendendo aos anseios de apenas uma parte ineficiente do setor produtivo, em detrimento da sociedade – que arca com a inflação de preços – ou do setor produtivo como um todo. Além disso, penalizar as importações – que caíram 2% no Brasil em 2012, segundo a OMC – pode causar um aumento no preço de insumos necessários à produção, o que torna nossa economia menos competitiva também nas exportações. Seria um tiro no pé para um país que já exporta pouco – segundo o mesmo levantamento, continuamos em 22º lugar, com participação de apenas 1,3% das exportações mundiais. Em 2012, as vendas brasileiras para o exterior sofreram uma redução de 5% em relação ao ano anterior, situação que pode ser atribuída, em grande parte, à crise na Europa – grande importadora – e à queda nos preços das commodities, mas que, certamente, não se beneficia da ausência de novos acordos de livre comércio e dos entraves à produção em nosso país.
Quanto a este último fator, nunca é demais lembrar que de nada adiantam ações emergenciais sem se preocupar em consertar as graves deficiências estruturais – cuja lista é bem conhecida – que estão na raiz das dificuldades sofridas pela indústria. Sem isso, voltaremos a cometer velhos erros. Historicamente, o protecionismo atrasou o desenvolvimento tecnológico do país, pela reserva de informática dos anos 1970, e gerou uma indústria automobilística que ganhou a fama de produzir carroças. No setor de brinquedos, embora salvaguardas tenham sido implantadas na década de 1990, os importados hoje representam 70% do mercado doméstico e os empresários nacionais continuam reclamando, uma vez que aquelas medidas não foram acompanhadas de políticas de longo prazo que lhes permitissem concorrer de igual para igual com as empresas estrangeiras.
Logo, apenas limitar a concorrência não resolve o problema. Eventuais medidas de proteção devem vir acompanhadas de ações consistentes para combater nossa ineficiência – a qual, diferentemente do que ocorria até pouco tempo atrás, não é mais ocultada pela alta no preço das commodities. O rei está nu, e as previsões sombrias da OMC para o comércio internacional nos próximos anos nos obrigam a promover com urgência a nossa competitividade.

Artigo publicado no jornal Valor Econômico em 8 de julho de 2013 - p. A12

terça-feira, 18 de junho de 2013

O Brasil acordou. E agora?

 




Uma wiki-revolução brasileira?
 
 
Indignados, enfim. O Brasil parece ter entrado na era das “wiki-revoluções”. No que isso vai dar?
 

Brasília, Congresso Nacional, 17 de junho de 2013
“Wiki” é o termo usado para designar um tipo de software que permite a edição coletiva de documentos em rede (como a Wikipedia). Como as revoltas ocorridas nos últimos anos têm características parecidas com as desses programas – são espontâneas, descentralizadas e baseadas na tecnologia –, estas têm sido denominadas “wiki-revoluções” por alguns autores, como Manuel Castells. (2011 – ver referências abaixo).
 
 
Essas revoltas usam a internet como canal para sua organização e expressão e levam as pessoas a coincidir em um momento e lugar determinados, obtendo impacto nos meios de comunicação e pressionando as instituições graças à repercussão desse impacto junto à opinião pública (Castells, 2001).
 
Pois bem, as manifestações que tomaram as ruas do Brasil seguem essas características, assemelhando-se à Primavera Árabe no Oriente Médio e norte da África, ao movimento dos Indignados na Espanha e ao Occupy Wall Street” nos Estados Unidos.
 
Aqui, assim como lá, sites e redes sociais foram utilizados para a convocação de protestos e intercâmbio de informações. As páginas do Facebook, contas do Twitter e o YouTube serviram, também, para publicar e repercutir fotos e vídeos da repressão, feitos por meio de câmeras de telefones celulares pelos próprios manifestantes – fotos e vídeos estes que alimentaram os meios de comunicação tradicionais, amplificando ainda mais seu efeito.
 
“Saímos do Facebook”, diziam algumas das faixas dos manifestantes. 81% se informaram dos atos por meio dessa rede social e, no total, 85% dos presentes buscaram informações pela internet, o que levou a 79 milhões de compartilhamentos sobre os protestos em diversos sites, apenas no dia de ontem (Folha de S.Paulo; O Estado de S. Paulo).
 
Aqui, também, o movimento se caracteriza por sua descentralização e ausência de líderes. “O povo, unido, não precisa de partido” foi um dos gritos de guerra adotados e, das 65 mil pessoas que participaram da manifestação em São Paulo, 84% declararam não ter preferência partidária.
 
Porém, se as características do movimento daqui são parecidas com as dos de lá, há também diferenças entre eles. Comparando, então, o que esperar das manifestações brasileiras?
 
A Primavera Árabe tinha o objetivo de depor ditadores há décadas no poder. Ter uma meta clara aumenta as chances de que a revolta tenha resultados concretos – como ocorreu na Tunísia, Egito, Líbia e Iêmen. Isso torna esses movimentos mais parecidos com outros que tivemos por aqui tempos atrás, como o das “Diretas Já” e o “Fora Collor” – ambos descentralizados ou, ao menos, com múltiplas lideranças, porém com objetivos bem definidos e atingidos.
 
Ora, embora seja verdade que as manifestações atuais tenham se iniciado a partir das reivindicações práticas (e justificadas) do Movimento Passe Livre, todos sabem que estas só ganharam força quando se transformaram em um grito de protesto contra “tudo o que está aí”: uma insatisfação generalizada para com uma classe política majoritariamente corrupta e incompetente e instituições incapazes de fornecer serviços públicos com a mínima qualidade.
 
Isso torna o movimento brasileiro mais parecido com o espanhol, que reclamava da incapacidade do governo em lidar com a crise e o desemprego, e o norte-americano, cujo lema era que os 99% da população não estariam representados pelo 1% que comandava (comanda) o país em benefício próprio.
 
Qual foi o resultado destes últimos movimentos? Em ambos os países, não houve maiores mudanças no “sistema”.
 
O risco de um movimento contra tudo e contra todos é esse. A falta de propostas sobre o que deve ser construído no lugar do que se quer derrubar pode esvaziar as manifestações ou torná-la apenas um jeito violento de desopilar nossas frustrações – o que seria o pior caminho a seguir. Ninguém sabe muito bem como transformar a mobilização em ações práticas – e este post não tem a pretensão de ir além de um simples início de conversa.
 
O que se poderia fazer, então, para evitar que a indignação demonstrada nos últimos protestos não tenha nenhum resultado?
 
Um caminho possível é o de transformar esse movimento em uma luta pelo aperfeiçoamento de nossa democracia, aumentando a participação direta da população a fim de evitar que atos e projetos contra o interesse público (a lista é imensa e crescente) sejam aprovados. Ir pra rua é legal e é ótimo instrumento de pressão, mas precisamos encontrar meios para que os cidadãos sejam ouvidos com maior frequência, de forma mais institucionalizada.
 
Isso é viável?
 
A resposta pode estar na revolução tecnológica. Não devemos subestimar o que acontece hoje na internet. É tão ou mais importante do que ocorre nas ruas.


Atualmente, há canais para que um novo tipo de democracia, mais participativa, comece a ganhar corpo. A esfera pública de nosso tempo se baseia, em grande parte, como observa Castells, em nosso sistema de comunicações. O ciberespaço se transformou em uma "ágora eletrônica global", onde as pessoas se encontram para expressar suas preocupações e compartilhar suas esperanças, onde "a diversidade do decontentamento humano explode em uma cacofonia de sotaques" (Castells, 2001).
 
 
Redistribuir o poder hoje concentrado nas mãos dos políticos tradicionais, transferindo parte das decisões para os cidadãos reunidos na cada vez mais populosa “praça virtual” da internet, pode ser uma boa maneira de reformar um sistema político que se mostra, nitidamente, desgastado.
 
Claro que essa ideia levaria tempo para ser implementada e depende, ela mesma, do desenvolvimento de controles que assegurem a legitimidade e transparência desses processos de decisão. Porém, considerando que não se pode simplesmente acabar com “tudo que está aí” sem ter o que por no lugar, por que não começar já a pensar nela?
 
Ainda não dá para responder que rumos os protestos atuais irão tomar. Eles podem não dar em nada. Eles podem resultar em uma vitória pontual na área do transporte. Eles podem significar a futura troca de um governante por outro (o que hoje significa, normalmente, trocar 6 por meia dúzia). Mas se a indignação ganhar corpo e persistir, podemos estar assistindo ao momento em que foi plantada a semente de um novo modelo de democracia no Brasil.
 
Quem sabe?
 
 

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CASTELLS, Manuel. La wikirrevolución del jazmín. La Vanguardia, 29 jan. 2011.
 
CASTELLS, Manuel. La Galaxia Internet. Barcelona: Areté (Plaza & Janés), 2001.

CASTELLS, Manuel. Global Governance and Global Politics. The 2004 Ithiel de Sola Pool Lecture: American Political Science Association Annual Meeting. Political Science & Politics, v. 38, nº 1, p. 9-16, 2005.


Folha de S. Paulo: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/114598-ao-menos-65-mil-protestam-nas-ruas-de-sao-paulo.shtml
 
O Estado de S.Paulo, “Pelas redes sociais, 79 milhões de pessoas falando de um tema”, 18/06/2013, p. A15.


quarta-feira, 5 de junho de 2013

Artigo - jornal Hoje em Dia - 31/05/13


A Aliança do Pacífico e o Brasil


No dia 23 de maio encerrou-se a VII Cúpula da Aliança do Pacífico, bloco fundado em 2011 por Chile, Colômbia, México e Peru que começa a chamar a atenção, principalmente quando comparado ao combalido Mercosul.
Reunindo países com governos dos mais liberais do continente – no caso do Peru, a iniciativa de se juntar ao grupo se deve ao presidente anterior, Alan García – a Aliança pretende eliminar até o final de junho 90% das tarifas de importação dos produtos comercializados entre seus membros. Já conta com dezesseis Estados observadores, como a Costa Rica – que se unirá à Aliança – Panamá, Espanha, Canadá, Japão e até mesmo o Paraguai, ainda suspenso do Mercosul.
Juntos, os quatro países fundadores têm população superior a 200 milhões de habitantes, com PIB de mais de 2 trilhões de dólares – o que equivale a 35% da riqueza da América Latina – e respondem por mais de 55% das exportações da região. Caso fossem um único país, formariam a 9ª maior economia mundial.
Diferentemente do Mercosul que, por ser uma união aduaneira, depende do consenso entre seus membros para assinar novos acordos com concessões tarifárias, a Aliança do Pacífico se caracteriza como zona de livre comércio, o que permite que seus países celebrem esse tipo de acordo individualmente.
O resultado disso? O Mercosul assinou apenas 3 acordos de livre comércio desde sua criação, enquanto o Chile tem 21 desses acordos, o Peru 12, o México 13 e a Colômbia 11. Coincidentemente ou não, os países da Aliança têm se destacado por sua taxa de crescimento econômico. Enquanto a América Latina cresceu 3,1% em 2012, o Chile cresceu 5,5%, o Peru 6,3%, o México 3,5% e a Colômbia 4,8%.
O Brasil deveria se preocupar. A Aliança do Pacífico está inserida no contexto mais amplo do surgimento de novos acordos de livre comércio bilaterais e regionais que vão além das simples concessões comerciais, estabelecendo, também, regras sobre propriedade intelectual, compras governamentais, serviços e proteção aos investimentos. Ficar de fora desses acordos não apenas prejudica a competitividade de nossas empresas, que deixam de ter preferências tarifárias, mas nos afasta da negociação daquelas regras, que podem vir a se tornar padrão mundial sem que tenhamos participado de sua criação.

Publicado no jornal Hoje em Dia (MG) em 31 de maio de 2013, p. 14.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Artigo - Eleição EUA - Outubro 2012

Terra da Oportunidade

As campanhas dos candidatos à Presidência dos Estados Unidos da América, cuja eleição ocorrerá no próximo dia 6 de novembro, poderiam gravitar em torno de diversos temas. Aspectos morais são, normalmente, fator relevante para a decisão dos eleitores daquele país. Aspectos econômicos, especialmente neste ano, ainda sob influência da maior crise financeira desde a Grande Depressão da década de 30, sempre têm muito peso no processo eleitoral. Ao que tudo indica, no entanto, a eleição norte-americana escolheu como principal tema de debate um aspecto mais institucional e filosófico, relacionado à forma como os dois candidatos e seus partidos veem a questão da oportunidade na sociedade.

Para os republicanos, a oportunidade aparece de forma espontânea, bastando deixar os cidadãos livres para empreender e alcançar o sucesso. Quando buscam modelos, apontam para o topo das camadas sociais, procurando mostrar que é possível ser bem sucedido por sua própria conta e iniciativa, independentemente da ação do Estado – o seu próprio candidato a Presidente, Mitt Romney, pretende simbolizar isso.

Preocupações – fundamentais, diga-se de passagem – com o déficit público e com o aumento da competitividade predominam no discurso baseado na certeza de que basta deixar o caminho livre e desimpedido para que os indivíduos – ainda que apenas alguns deles – prosperem. A raiz desse pensamento, na área política, pode ser encontrada nas ideias do Filósofo inglês John Locke (1632-1704), as quais, acredita-se, inspiraram a famosa frase utilizada na Declaração de Independência norte-americana que estabelece como direitos inalienáveis a vida, a liberdade e a busca da felicidade – lemas que, historicamente, sempre foram associados à concepção de um governo limitado. Na área econômica, mais recentemente, esse pensamento foi reforçado pelas opiniões de Milton Friedman (1912-2006), Professor da Universidade de Chicago que se opunha ao keynesianismo dominante, defendendo uma política macroeconômica de livre mercado e intervenção mínima do Estado.

Essa crença na mão invisível do mercado permanece inabalável no discurso republicano, mesmo quando o mercado mete os pés pelas mãos de forma bem visível – como ocorreu na crise de 2008. Na Convenção desse partido, por exemplo, o candidato a vice, Paul Ryan, deixou claro que, entre impor limites ao crescimento e impor limites ao tamanho do governo, “eles escolhem limitar o governo”, apostando na redução de impostos, na simplificação da regulação e “no potencial de uma nação livre, no poder da livre iniciativa e das comunidades fortes de superar a pobreza e o desespero”.

Já os democratas, na área econômica, parecem ainda sob a influência de John Maynard Keynes (1883-1946) – lembrando que as ideias desse economista foram postas em prática pelo governo democrata de Franklin Roosevelt, que procurou combater a depressão econômica por meio de fortes gastos públicos. E, politicamente, os democratas dão a impressão de seguir o pensamento de filósofos como John Rawls (1921-2002), que defendem que a igualdade de oportunidades tem que ser garantida pelo Estado, caso contrário os indivíduos não conseguirão desenvolver as suas reais capacidades – usando a terminologia de Amartya Sen que, embora critique Rawls, concorda com ele nesse ponto –, o que impedirá que o ideal de justiça seja alcançado.

Assim, os democratas tendem a concentrar suas preocupações nas dificuldades que cidadãos de diferentes origens podem enfrentar para chegar ao sucesso, em um mundo cada vez mais competitivo, em que preocupações básicas com saúde e educação podem impedir que as pessoas avancem. Na Convenção desse partido, o discurso que deixou mais claro esse ponto de vista foi o do Prefeito de San Antonio, Julian Castro, que afirmou acreditar que a “oportunidade hoje criada levaria à prosperidade de amanhã” e que, embora seja normal em uma economia de livre mercado que alguns tenham mais sucesso que outros, não é aceitável que alguns “sequer tenham chance” de fazê-lo.

Obama, melhor do que ninguém, inclusive em seu próprio partido – nem mesmo Bill Clinton, provavelmente o melhor político mundial da atualidade – reflete essa visão mais multicolorida, em contraste com a convicção monocromática de seus adversários, que tardam em reconhecer que os Estados Unidos se tornaram um país menos homogêneo, em que as diferenças de ponto de partida entre os cidadãos passaram a representar um peso maior do que antes na hora de determinar quem conseguirá alcançar o sucesso. Em seu discurso na Convenção Democrata, pregou: "Sim, nossa estrada é longa, mas viajamos juntos. [...]. Não deixamos ninguém para trás. Nós nos ajudamos".

O elefante republicano se vê no espelho e esquece que nem todos têm o mesmo tamanho e que alguns precisam de ajuda para desenvolver as suas capacidades e crescer. Por entender a sociedade de uma forma mais complexa e interdependente, o burro democrata, por sua vez, vacila e empaca, o que pode levar a governos menos determinados – e Obama é visto, por muitos, como um Presidente hesitante.

Pesquisas acabam capturando essa percepção de que a empatia com o candidato que se preocupa em não abandonar ninguém nem sempre é acompanhada da confiança de que ele é o mais indicado para o comando. Em uma enquete recente, realizada pelo Washington Post/ABC News, diante da pergunta sobre qual dos candidatos seria “um amigo mais confiável”, 50% dos eleitores escolheram o democrata e 36% o republicano. E “quem você convidaria para jantar na sua casa?”: 52% levariam Obama e 36% Romney. No entanto, quando questionados sobre quem gostariam que fosse “o capitão de um navio durante uma tempestade”, os números entre eleitores independentes passam a ser de 44% para o republicano e 43% para o democrata.

Só empatia, portanto, não é suficiente para ganhar a eleição. Obama terá que mostrar que sua ideologia funciona e que seus planos são mais eficientes do que os de seu adversário que, amparado no discurso de que só não consegue quem não quer, tenta se valer de seu perfil de self-made man para demonstrar que Obama é, vá lá, um sujeito legal, mas não está preparado para dirigir o país nesses tempos difíceis.

Certo reconhecimento de que lá, como em nenhum outro país, seria o melhor lugar do mundo para um indivíduo prosperar, não importando a sua origem social ou familiar, conferiu aos Estados Unidos a fama de “terra da oportunidade”. Os candidatos parecem diferir, no entanto, sobre o papel que o governo tem em assegurar que isso aconteça. A eleição caminha, assim, para um embate entre o liberalismo político e o liberalismo econômico. Como meio termo lá não há, a disputa se resolverá com base na percepção que a população norte-americana terá de qual dessas visões pode resolver os seus problemas presentes sem minar as condições para um futuro melhor.

Publicado na Revista Jurídica Consulex n. 377, outubro de 2012